F-35I Adir, trunfo ou pedra no sapato?

Publicado em: 08/04/2016

Categoria: DESTAQUES

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Foto: EPA

Todos sabem da importância dada por Israel a sua defesa, chegando ao extremo de direcionar 24% do PIB para a pasta, em 1980, e mantendo uma média de 6% nos últimos anos. Um número alto se comparado com potências como os EUA e a Rússia, que direcionam em média 4%. Com isso fica claro que o país possui tradição em garantir que suas forças armadas se mantenham modernas e prontas para o combate, e que para isso, é vital que sua indústria de defesa também se mantenha forte e moderna.

As forças amadas de Israel, conhecidas como IDF (Israel Defense Forces), sempre foram referência no emprego de armamentos e táticas modernas, o que não é um status fácil de conseguir em um mundo onde a indústria de defesa é uma das que mais desenvolve tecnologias que influenciam o jeito que vivemos a médio ou longo prazo.

Não se chega nesse nível sem uma firme política voltada para a defesa, sem um governo que apoie sua indústria de defesa acima dos produtos importados e prontos para uso. Uma solução mais rápida e barata, mas que não deixa nenhum tipo de legado ou conhecimento real, palpável, para que o país seja de fato soberano quando mais precisar.

E é essa mentalidade israelense que começa a complicar uma venda que, até então, era considerada como um “golaço” pela turma da Lockheed Martin.

Trata-se da venda de 33 aeronaves F-35A Linghtining, denominadas por Israel como F-35I Adir, que do hebraico pode ser traduzido como “poderoso”.

A venda, concretizada em dois momentos com 19 aeronaves adquiridas em 2010 e mais 14 em 2015, não pode ser tratada como uma “simples” negociação de caças a um país. Isso porque o F-35 não é qualquer caça, e Israel não é qualquer país quando se trata de defesa, como já ficou claro.

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Foto: USAF

O plano de Israel é substituir sua frota de cerca de 300 caças F-16, de diferentes versões, pelo F-35. Esse plano existe desde 2006, e basicamente é o que está acontecendo agora, mas com algumas mudanças significativas de cenário.

Por exemplo, em 2006 o F-35 apresentava uma previsão de custo por unidade na ordem de aproximadamente US$50 milhões. Esse valor foi revisado inúmeras vezes, subindo para US$80 milhões pouco depois e culminando em 2008 no valor estimado de US$200 milhões por unidade. Esse era até então o valor unitário de um F-22, um jato maior e muito mais capaz que o F-35, porém de venda proibida para outros países.

Na época da assinatura do contrato da primeira compra de Israel, em 2010, foi anunciado que o país estava pagando US$ 144.7 Milhões por aeronave. Valor que já caiu para US$ 110 Milhões na assinatura do segundo contrato cinco anos depois, mas que segue como um valor altíssimo para uma aeronave monomotora de capacidades Stealth limitadas e com pouquíssimos armamentos integrados não só agora, como em médio prazo.

As tensões frequentes no Oriente Médio, que incluem levantes contra Israel de tempos em tempos, fazem do cenário de operações do F-35I um ambiente diferente do que o modelo deve encontrar nas bases aéreas dos outros clientes externos da Lockheed Martin.

Isso fica claro nesse momento, quando o governo de Israel tenta de todas as formas negociar uma série de “exceções” para a compra de mais aeronaves do tipo. Porém não são exceções simples, exceções que podem passar como peculiaridades de um ou outro cliente.

As duas solicitações de maior peso que Israel trouxe para a mesa dizem respeito à manutenção da aeronave, e a integração de equipamentos e armamentos próprios. Só esses dois itens comprometem todo o planejamento da Lockheed Martin para a vida útil das aeronaves de seus clientes. Isso porque a manutenção do F-35 deverá, segundo o fabricante, ser realizada em centros de manutenção específicos e localizados em pontos estratégicos do planeta.

Estratégia essa que visa concentrar os serviços e facilitar todo o processo, além de prover um maior controle quanto ao que é feito em cada aeronave. O problema é que Israel não é um país contemplado com um desses centros de manutenção… o que sob o ponto de vista do governo israelense, não é nenhum problema.

O país negocia a capacidade de realizar manutenções extensas na aeronave explicitamente como uma exigência para seguir com o plano de continuar comprando F-35 a fim de substituir seus F-16. A ideia de Israel é fazer uso do sistema de manutenção da Lockheed, denominado ALIS (Autonomic Logistics Information System) em tempos de paz, mas ter completa independência e capacidade para manutenir suas aeronaves em tempos de guerra. O que é uma constante no país.

Segundo declarações de um oficial da Força Aérea Israelense não identificado para o site Defense News, “O sistema ALIS é muito eficiente e econômico, mas seu único defeito é que foi feito para países que não tem mísseis caindo neles”.

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Foto: Bill McElligott

Por sua vez, a Lockheed tem receio mais que justificado em ceder tal capacidade a pedido de um único cliente. Um centro desse porte, não planejado e com intenções tão específicas como dar suporte em tempos de guerra, foge de todo o controle que a empresa mantem sobre o F-35 além de jogar fora todo o esforço feito até então para selecionar e qualificar os centros de manutenção estratégicos, como os da Itália e da Turquia.

Em declaração recente também ao site Defense News, um executivo da Lockheed afirmou que serviços pesados nos F-35 devem ser executados sob segurança e critérios rigorosos, pois segundo ele, “quando se desmonta uma aeronave, você acaba expondo sua mágica. Então esse tipo de serviço deve ser realizado em locais previamente designados”.

O outro ponto de conflito entre cliente e fabricante, diz respeito à integração de armamentos e equipamentos de fabricação israelense. A Lockheed Martin nunca teve a intenção de entregar os códigos dos softwares do F-35 para nenhum cliente, a fim de manter a segurança e exclusividade no desenvolvimento e integração da aeronave.

Porém, como Israel tradicionalmente faz com as aeronaves modernas que adquire, existe também o desejo de personalizar de forma intensa o F-35, a fim de adaptar a aeronave à sua realidade.

A ideia é ter a liberdade de transformar o F-35I Adir em versões especializadas como fez com o F-15I Ra’am e o F-16I Sufa, aeronaves que tiveram até 50% dos sistemas originais substituídos por equipamentos israelenses.

O fator complicador é que da mesma forma que Israel trata a independência de manutenção como exigência para continuar comprando novos lotes de F-35, o desejo de possuir a capacidade de modificar a aeronave é tratado com o mesmo peso.

Essa questão permanece em debate entre as partes, e ainda não se chegou a um acordo. O que se sabe que a Lockheed Martin sugeriu até então é a integração de armas especificas, feita pela própria Lockheed. O que de fato já está ocorrendo com a bomba Spice 1000.

Essa opção obviamente não agradaria um dos países que mais desenvolve armamento e sistemas de guerra modernos, lançando novos produtos no mercado mundial a todo momento, e principalmente, utilizando eles em seus conflitos frequentes.

A capacidade de Israel de integrar a arma ou sistema que quiser a fim de manter a aeronave mais moderna da frota capaz de utilizar seus produtos mais novos é item de prioridade máxima para a IDF. E não poderia ser de outro jeito em um país que apoia sua indústria de defesa da forma como Israel faz.

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Foto: Lockheed Martin

Uma conquista até então é a autorização para a instalação de um sistema C4 (Comando, Controle, Comunicações e Computação) israelense, que segundo o fabricante, a IAI (Israel Aerospace Industries), funciona como um aplicativo de celular instalado no sistema central da aeronave. O que é um passo importante, mas muito pouco.

O que se pode concluir nisso tudo é que as questões envolvendo o F-35I Adir representam uma “faca de dois gumes” para a indústria norte americana e parceiros. Não restam dúvidas de que a venda do F-35 para Israel possui um peso político e de marketing considerável para o projeto que até hoje encontra sérias dificuldades de desenvolvimento que a todo momento lançam sombra sobre a qualidade do caça e terminam por manchar sua reputação desde antes de nascer.

Porém as exigências feitas trazem a necessidade de uma negociação de altíssimo nível, a fim de não prejudicar a fatia da indústria norte americana e parceiros que apoiam o planejamento de manutenção de longo prazo do F-35, e que agora correm o risco de perder a exclusividade caso Israel consiga as autonomias solicitadas. Não só pelas aeronaves israelenses, mas pelas aeronaves dos demais operadores do F-35, e que também são potenciais clientes de Israel na compra de sistemas e armamentos, e poderiam vir a abandonar o programa da Lockheed e se virar para Israel tanto para manutenção complexa quanto para adaptações, integrações ou modernizações no futuro.

A única certeza é de que essas questões devem ser solucionadas com certa urgência, uma vez que os primeiros F-35I devem chegar a Israel ainda este ano, além da intenção já declarada da Força Aérea de Israel em atingir o IOC (Initial Operational Capability) do F-35I Adir em apenas um ano após a chegada das primeiras unidades, um tempo recorde para uma aeronave tão complexa.

Portal Defesa

5 Responses to F-35I Adir, trunfo ou pedra no sapato?

  1. Velox disse:

    E comprar uma quantidade expressiva se equivale a diversas contrapartidas, uma delas é brindar o cliente com benefícios e essas exigências de Israel não é um pedido de graça, ele paga o valor pedido, tem direito de retorno.

  2. Velox disse:

    É isso que os israelenses querem, “entender” para modificar, a máquina deve ser deles, trabalhar pra eles.

  3. as montenegro disse:

    Todos os caças americanos são caças patriotas isto quer dizer que em um conflito este equipamento sabe de que lado está.

  4. as montenegro disse:

    Todos os caças americanos são caças patriotas isto quer dizer que em um conflito este equipamento sabe de que lado está.

    • marcus cesar geudice mendes disse:

      Israel deveria projetar, e construir suas aeronaves. A Lockheed Martin não é obrigada a dar de graça a receita do seu bolo.Mesmo que Israel compre 500 F35.

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