Não será o último…

Publicado em: 22/07/2014

Categoria: DESTAQUES

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Do Rio de Janeiro

É impossível para a maioria de nós conseguir imaginar o que se passa no interior de uma aeronave em queda. Podemos tentar, desenhar uma imagem de pânico generalizado, despressurização explosiva e terror. Mas não saberemos nunca como se passa, até mesmo se essas cenas de terror realmente são vistas por alguém ou a perda de consciência é mais rápida, o que de certa forma seria desejável. É algo que quando acontece choca quem não tem relação com ninguém a bordo, e traumatiza quem tem.

É pior ainda tentar imaginar quando essas cenas são causadas de forma tão violenta e repentina quando da explosão de um míssil que desintegra a aeronave, interrompendo abruptamente um voo tranqüilo, cheio de civis com sonhos e histórias de vida, e que em nenhum momento nada tem a ver com qualquer tensão ou conflito que possa estar se desenrolando em solo.

As imagens dos destroços, e muitas vezes corpos, do voo MH17 da Malaysia Airlines que correm o mundo diariamente desde o dia 17 de julho, dia do ocorrido, nos fazem refletir quanto a essa injustiça tremenda que é ceifar vidas inocentes, civis em sua maioria com tanta vida ainda pela frente. Mas faz lembrar também com pesar que não é um caso inédito, que esse “erro” já foi cometido antes, várias vezes, e nada foi feito para impedir que ocorra novamente…e ocorreu, e vai continuar ocorrendo.

Desde os anos 40, foram 24 aeronaves civis abatidas por fogo anti-aéreo. Algumas em tempos de guerra, o que não justifica, mas muitas outras em tempos de paz. Algumas foram abatidas de propósito, como os casos dos voos 825 e 827 da Air Rhodesia, abatidos com 5 meses de diferença entre eles em 1978 e 1979 respectivamente, na mesma região do Zimbabwe e pelo mesmo grupo separatista, os ZIPRA (Zimbabwe People’s Revolutionary Army). No total foram 107 mortos, sendo que em um dos voos, o 825, 18 passageiros sobreviveram a queda mas foram mortos pelos membros do citado grupo terrorista.

É difícil pensar nos motivos para se abater de propósito uma aeronave civil, lotada de pessoas inocentes. Porém é mais “fácil” de entender por se tratar de uma zona de conflito, onde os passageiros, tripulantes e separatistas são do mesmo país e, portanto estão cientes que estão em guerra.

Mas e quando não é esse o caso, e os civis a bordo de uma aeronave atingida por um míssil não sabem muitas vezes nem sobre que país estão passando, muito menos tem idéia dos motivos para que uma guerra possa estar ocorrendo a quilômetros abaixo?

Três casos assim serão mostrados neste artigo, detalhados e mostrando acima de tudo que no cenário mundial não existem bonzinhos, que ninguém está livre de cometer um “erro” destes e portanto muito menos pode exigir alguma justiça, quando a história mostra que em casos como este ocorrido com o MH17, a única justiça feita é o pagamento de indenizações as famílias das vítimas, e mesmo assim apenas em alguns casos. Nenhum país nunca sofreu absolutamente nenhuma sanção ou retaliação por abater uma aeronave civil.

O agressor inexistente

Arte representando míssil SM-2MR se aproximando do Airbus A300 da Iran Air – Arte: Leonardo Jones/ Portal Defesa


Vamos ao ano de 1988, mais precisamente ao dia 3 de Julho. O conflito Irã-Iraque estava próximo do fim, mas as tensões na região ainda eram enormes. Ataques a navios mercantes ocorriam com muita freqüência no Estreito de Hormuz, no Golfo da Pérsia. Navios de guerra da Marinha Norte Americana foram deslocados para a região a fim de garantir o trânsito das embarcações.

Um navio específico, o USS Vincennes, um cruzador armado com mísseis de diversos tipos entre Harpoon, ASROC e SM-2, foi enviado a região a fim de reforçar tal missão de proteção ao tráfego naval. Comandado por William C. Rogers, conhecido por ser um capitão energético e agressivo em suas decisões, no dia 3 de julho o navio despachou um helicóptero para verificar a presença de lanchas patrulha iranianas em atitude suspeita. O helicóptero acabou sendo alvo de disparos de armas de pequeno calibre em uma perseguição que o levou para águas iranianas. O USS Vincennes acompanhou a perseguição e por isso também se encontrava em águas iranianas.

O helicóptero nada sofreu, mas logo após este episódio, uma aeronave foi detectada pelo então ultramoderno sistema de guerra Aegis do navio e chamou a atenção do comandante Rogers. Por motivos ainda não muito bem esclarecidos, foi determinado que a aeronave estava em descida, em perfil de voo compatível com uma manobra de ataque anti-navio de um Grumman F-14 Tomcat, caça operado pelo Irã. Foi o início de uma série de erros que culminou no disparo de dois mísseis anti-aéreos SM-2MR, que atingiram o alvo com sucesso, abatendo o suposto agressor.

O “agressor”, porém era na verdade um Airbus A300. Se tratava do voo 655 da Iran Air com 290 pessoas a bordo, que seguia de Teerã para Dubai, com uma escala em Bandar Abbas. Não houve sobreviventes. A aeronave estava operando de acordo com todas as leis internacionais, identificada eletronicamente como uma aeronave civil, os tripulantes estavam fazendo toda a comunicação com o controle aéreo em inglês, e estava na verdade subindo, já que havia acabado de decolar de Bandar Abbas.

Os Estados Unidos nunca pediram desculpas pelo ocorrido, e só admitiram o erro cinco anos depois, em 1993.

No lugar errado e na hora errada

Arte representando míssil 5V21 se aproximando do Tu-154 da Siberian Airlines – Arte: Leonardo Jones/ Portal Defesa


Em 2001, menos de um mês após os ataques terroristas nos Estados Unidos que derrubaram as torres do World Trade Center e atingiram o Pentágono, um Tupolev Tu-154 da Siberian Airlines operando o voo 1812 de Tel Aviv para Novosibirsk, com 78 pessoas a bordo desapareceu repentinamente sobre o Mar Negro, não deixando sobreviventes.

Nenhum pedido de socorro foi feito, nenhum sinal de que a aeronave tenha feito qualquer manobra, simplesmente desapareceu.

Pouco depois um piloto de uma aeronave armênia declarou que viu o Tupolev explodindo no céu, e os destroços caindo no Mar Negro. A explosão repentina da aeronave levantou a suspeita de um ataque terrorista, já que a maioria dos passageiros era de israelenses. Porém logo foi revelado que as forças armadas da Ucrânia realizavam um treinamento com tiro real de mísseis anti-aéreos na Criméia, a apenas 350km da área onde a aeronave caiu exatamente no momento do então acidente.

Inicialmente o governo da Ucrânia negou que um de seus mísseis tenha atingido a aeronave, afirmando que os alvos lançados durante os treinamentos foram destruídos. A Rússia, fabricante dos mísseis utilizados entrou na discussão, e declarou que seria impossível um dos mísseis terem abatido a aeronave, já que conta com um sistema de autodestruição e que no caso do uso em treinamentos, eles são ajustados de tal forma que não seja possível alcançar as aerovias.

Porém na medida em que as investigações avançavam, o governo da Ucrânia foi obrigado a admitir que durante os treinamentos, dois mísseis foram disparados simultaneamente no mesmo alvo, um míssil do sistema S-300 e outro do sistema S-200. O alvo foi atingido com sucesso pelo míssil do sistema S-300 antes do outro míssil chegar à altitude em que o alvo se encontrava.

O míssil do sistema S-200 então ultrapassou o local onde o alvo estaria e automaticamente detectou um novo alvo, no caso, o voo 1812.

Se parece um cachorro, anda como um cachorro e late como um cachorro… é um cachorro!

Arte representando míssil 9M317 se aproximando do Boeing 777-200 da Malaysia Airlines – Arte: Leonardo Jones/ Portal Defesa


Dia 17 de julho de 2014, um Boeing 777-200 da Malaysia Airlines cumprindo o voo MH17 de Amsterdam para Kuala Lumpur sobrevoava a Ucrânia percorrendo a aerovia UL980.

A rota não era comum para o voo desde que os conflitos armados tomaram conta da Ucrânia em janeiro deste ano, porém uma forte tempestade sobre o Mar Negro forçou a tripulação a utilizar este caminho para chegar à Malásia.

Após cruzar mais de 1.100km sobre o território ucraniano, e a apenas 40km da fronteira com a Rússia, prestes a livrar um território em conflito armado, a aeronave desapareceu dos radares de controle aéreo.

O fato ocorreu quase sobre a cidade de Donetsk, reduto de um grupo separatista que havia reclamado a autoria da derrubada de três aeronaves em episódios recentes na região, um Il-76 em 14 de junho, um An-26 em 14 de julho e um Su-25 no dia 16.

Os destroços da aeronave se espalharam por uma área de cerca de 2km de extensão, com um ponto de impacto principal a cerca de 80 metros do limite da cidade de Hrabove. Partes do cone de cauda foram entradas a cerca de 900m deste ponto, e partes da cabine a 1,5km dali.

O governo norte americano declarou no mesmo dia da queda da aeronave que sistemas de monitoramento detectaram o acionamento de um radar de busca anti-aéreo pouco antes da queda do Boeing, e outro sistema detectou fontes de calor indicando a explosão do voo MH17 em pleno voo, a cerca de 33.000 pés de altitude.

Com base nisso, foi sugerido que a aeronave havia sido abatida por um míssil do tipo BUK M-1, que se encontra em poder dos separatistas de Donetsk desde o início de junho, mas que também faz parte do arsenal das forças federais da Ucrânia.

Com base nos acontecimentos passados, estamos vivendo um replay dos momentos após uma aeronave civil ser abatida, ou seja, ninguém é dono do míssil, e ninguém sabe o que aconteceu. Isso implica na obviedade de que alguém está escondendo a verdade já que o míssil não se disparou sozinho. Apesar de não ser surpreendente que essa desculpa seja um dia utilizada.

O único consenso até o momento é que um míssil abateu a aeronave, ceifando 298 vidas de uma só vez. E provas disso estão em todos os lugares.

Os destroços espalhados contam exatamente isso. Partes da fuselagem espalhadas por uma grande área, com bordas pontiagudas e amassadas como se o metal tivesse sido literalmente rasgado. Peças, pertences e corpos relativamente intactos, enquanto outras partes, pertences e corpos estão inteiramente despedaçados.

E como se isso já não bastasse para essa suspeita, uma imagem veio a tona praticamente confirmando a detonação de um míssil próxima da cabine do Boeing 777-200 da Malaysia Airlines:

Pedaço da fuselagem do Boeing 777-200 da Malaysia Airlines com marcas típicas da detonação de um míssil anti-aéreo – Foto: Internet


Não é preciso muito para perceber de onde vem esta peça. É a fuselagem lateral esquerda abaixo das janelas do cockpit, como podemos ver abaixo.

Comparação entre o destroço e a parte da aeronave de onde veio – Foto: Internet – Comparação: Portal Defesa

E quando comparamos os danos causados nesta peça, os buracos de estilhaços e o chamuscado na pintura, com os danos reconhecidamente causados por mísseis anti-aéreos, tudo fica mais claro:

A-10 Thunderbolt e Su-25 danificados por mísseis anti-aéreos – Fotos: Internet

Quem apertou o gatilho ainda é de certa forma um mistério. Foram os separatistas achando se tratar de uma aeronave militar? Foram os russos a fim de ter um pretexto para se reaproximar da Ucrânia? Foram os Ucranianos a fim de incriminar os separatistas? Foram os Ucranianos pensando se tratar da aeronave do presidente russo Vladmir Putin, que tem pintura similar e estava voltando do Brasil?

O que não é mistério é que, independente de quem fez isso, este acontecimento já tem tantos pares na história que é difícil pensar o porquê ainda ocorre. O objetivo principal da segurança de voo em qualquer lugar do mundo após um acidente ou incidente é trabalhar para que erros do passado sejam difíceis de acontecer no futuro, e que novos meios ou procedimentos sejam utilizado para tentar evitar isso.

Este princípio, porém parece não existir ou não ter sido até então o suficiente para proteger as aeronaves civis que eventualmente cruzem áreas de conflito ou de treinamento militar.

A única certeza que temos atualmente é que o caso do MH17 não foi nem de longe o primeiro, e não será o último.

Só podemos desejar que as vítimas do voo da Malaysia Airlines sejam sempre lembradas, juntamente com as vítimas das outras 23 aeronaves civis abatidas ao longo da história, e que isso um dia seja suficiente para que casos como esse deixem de ocorrer.

Portal Defesa

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