O falcão desaparecido

Publicado em: 20/08/2016

Categoria: DESTAQUES

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Do Rio de Janeiro

Em uma tarde até então normal de terça-feira, dia 26 de Julho, dois caças passavam em baixa altura na região de Ponta Negra e Jaconé, próximo de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.

Em alta velocidade as duas aeronaves chamavam a atenção das pessoas no litoral. Uma dessas pessoas era o morador de Saquarema, Régis Oliveira, que gravava um vídeo pessoal em uma trilha da região.

As aeronaves eram caças AF-1B da Marinha do Brasil, baseadas em São Pedro da Aldeia e pertencentes ao 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), de matrículas N-1001 e N-1011. São aeronaves recentemente modernizadas pela Embraer, e que contam com vários sistemas de ponta tanto de combate como de suporte e navegação.

A missão naquela tarde era utilizar esses novos sistemas em um ataque simulado de alvos de superfície. A Fragata F-43 Liberal encontrava-se a cerca de 100km do litoral, participando do mesmo treinamento e com sua tripulação atenta a presença das aeronaves no céu.

Em dado momento, após uma das surtidas programadas para aquela tarde, por volta das 14h30m os dois caças se afastavam da Fragata e, mais próximas do litoral, algo deu errado.

Uma colisão.

Em circunstâncias ainda em investigação, as aeronaves N-1001 e N-1011 acabaram se chocando em alta velocidade e baixa altura. O piloto da aeronave N-1001 conseguiu manter o controle do voo após a colisão, alijando ao menos um dos tanques subalares ainda sobre o mar e retornando em segurança a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, distante cerca de 40km e com o caça em condições ainda não informadas.

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Tanque alijado pelo AF-1B N-1001

Infelizmente a colisão fez o piloto da aeronave N-1011 perder o controle, resultando em um impacto de barriga na água.

No instante exato em que o metal da fuselagem do ventre do N-1011 entra em contato com a água, em uma cena impensável para qualquer pessoa, tinha início uma página da historia da Aviação Naval brasileira que vai sem dúvida deixar uma marca de comoção e profundo respeito.

No mesmo instante, no mesmo exato instante, uma operação de busca foi deflagrada e que se estende até o dia de hoje, procurando por sinais da aeronave e principalmente do piloto que não se sabia, até então, se havia conseguido se ejetar ou não de seu caça condenado. Ainda não se tem certeza, mas o curso dos acontecimentos daquela tarde apontam para a hipótese de que a ejeção nunca ocorreu…

Colisão aérea é um risco comum porém perfeitamente gerenciável na aviação militar pela própria natureza das missões, e um risco ligeiramente maior na aviação naval pela característica de voos baixos e em formação cerrada. Na colisão do dia 26 alguns fatores complicadores tornaram deste acidente uma ocorrência bastante complexa, e um desafio que ninguém poderia imaginar.

Um dos fatores é a região em si, composta por um mar relativamente profundo perto do litoral, alcançando em torno de 30m até o leito. O leito é cheio de sedimentos, que dificultam as buscas visuais e por sonares. As correntes marinhas da região também atrapalham as buscas, atrapalhando não só a estabilidade como a visibilidade dos equipamentos e mergulhadores.

Outro fator é a forma como a aeronave colidiu com o mar. A falta de destroços flutuantes em grande número sugere que o caça não se desintegrou com o impacto, e muito provavelmente se encontra com suas partes relativamente unidas.

Dois equipamentos responsáveis pela localização da aeronave e do piloto também não foram acionados. São eles o ELT (Emergency Locator Transmitter), acionado automaticamente durante o processo de ejeção do piloto, e o PLB (Personal Locator Beacon), acionado manualmente pelo piloto ejetado, e que se localiza em seu colete.

Somando esses fatores, infelizmente é natural perceber o desafio encarado pela Marinha e demais órgãos engajados nas buscas. Por conta disso, a Marinha tem utilizado métodos modernos como o uso do sonar rebocável Klein 5000 V2, capaz de fazer imagens de alta resolução do leito marinho, e do ROV (Remotely Operated Vehicle) SUB Fighter 15K, capaz de atingir profundidades de até 2000m, ambos a bordo do Navio de Pesquisa Hidrocanográfico H-36 Vital de Oliveira.

Outro navio com tecnologia de ponta engajado nas buscas é o RSV Fugro Aquarius, fabricado em 2015, e que conta com capacidade de drenagem do leito marinho, além do uso de outros ROV’s.

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Fugro Aquarius – Foto: Fugro

Uma abordagem diferente e não tão sofisticada também está sendo utilizada nas buscas, que é o apoio de um barco pesqueiro que, utilizando uma rede de arrasto, vasculha o leito nas regiões mais rasas em busca de vestígios da aeronave.

Até o momento, apenas dois destroços foram encontrados. Se tratam dos pneus do conjunto do trem de pouso principal da aeronave, sendo o primeiro encontrado dois dias após a queda a cerca de 30km, na Praia do Monte Alto em Arraial do Cabo, e o segundo pneu quatro dias após a queda a cerca de 50km, na Praia do Peró em Cabo Frio.

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Concomitantemente aos esforços nas buscas, as investigações para apurar as causas do acidente também seguem de forma intensa. Seguindo o Manual de Segurança de Aviação DGMM-3010 (Rev.3), uma Comissão de Investigação de Acidentes Aeronáuticos (ComInvAAer) foi estabelecida no mesmo dia da ocorrência, e segue desde então recolhendo informações de testemunhas, do controle de tráfego aéreo, do piloto envolvido na colisão e dos indícios até o momento encontrados para determinar quais os fatores contribuintes para o acidente, sempre com o intuito de prevenir que novos casos ocorram no futuro.

A comissão pode utilizar também, como previsto no manual, auxilio de pessoal e instalações do CENIPA a fim de contar com um maior número de recursos para a condução das investigações.

Ao contrário do que muitos pensam a investigação não tem por propósito punir ou apontar culpas, mas possui sim o caráter preventivo e, por isso, busca-se incansavelmente todos os fatores e falhas que levaram a possibilidade de uma colisão aérea durante uma tarde de tempo bom.

Falcão. Esse é o nome do Esquadrão VF-1. Uma unidade relativamente nova, criada em 1998, e que em momento algum de seus 18 anos de existência havia registrado qualquer tipo de acidente ou incidente grave em suas operações, sempre utilizando caças AF-1. Isso revela o altíssimo grau de profissionalismo de seus integrantes desde sua criação, com a segurança operacional como objetivo primário.

Acidentes acontecem na aviação, mesmo com todos os métodos preventivos e até preditivos empregados nos dias de hoje. Os riscos podem ser administrados e as falhas latentes identificadas a tempo, mas faz parte da atividade aérea estar sujeito ao impensável, ao imprevisível, e algumas vezes ao inevitável.

Essa ocorrência não mancha todo o trabalho feito pelos militares do VF-1 que lá estão ou que lá serviram nesses 18 anos de história. Pelo contrário, reforça a imagem de unidade valorosa e dedicada de corpo e alma ao cumprimento de suas missões.

Um falcão está desaparecido, e esforços não faltarão para trazer essa ave de rapina de volta pra casa.  Cabe a nós, do Portal Defesa e demais entusiastas da aviação militar, dedicar parte de nossos pensamentos em apoio aos envolvidos de forma direta nas buscas, e aos familiares e amigos.

É necessário respeitar as pessoas próximas, e por conta disto nós não iremos publicar a identidade do piloto desaparecido, mesmo já tendo sido divulgado por outros meios.

Portal Defesa

 

 

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